Fórum do Búfalo

Versão Completa: [ Meu Relato, Minha Vida ] - Vim, Vi e Venci.
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Confrades,

Chega então o momento em que eu Mr.T, relembro e revelo há vocês um pouco mais sobre minha pobre e traumática infância. Um período difícil, tortuoso e frio aonde não existia certezas, diretrizes ou exemplos para seguir. Tudo sempre dependeu da minha força. E o interior humano é insuperáveis senhores - É, de fato: insuperável.

Enfim, como alguns participantes deste fórum, nasci na década de 80 durante o assombroso "overnight" da bolsa de valores brasileira. De forma emergente, muitas famílias fizeram verdadeiras fortunas na época e a minha, não foi uma exceção. Éramos realmente abonados, com direito a 03 carros na garagem e apartamento de luxo e neste meio, veio à luz uma criança retalhada por um defeito genético data vênia conhecido por, lábio Leporino.
*Para os desavisados, Lábio Leporino é o nome dado para a existência de uma fenda ou grande corte no lábio e palato superior ou seja: Lábio, Boca e Nariz não eram de fato, conectados.

E a medicina (ausente na época), não ajudara meus pais a manter o devido controle e um sentimento de culpa e dó, surgira e abatia a todos.
E meu maior inimigo, sempre foi o tempo.

Em casos como o meu,(e na época em que nasci) não havia muito a se fazer até que a criança cresça. É necessário tecido e pele para se operar e isso só é alcançado, com alguns anos. Esperar, Esperar e Esperar era tudo o que eu podia fazer. Lembro-me que enquanto as crianças de minha rua aproveitavam o verão e a infância que lhes foi concedida, pela janela eu observava - ansioso e desejava crescer, logo. E rápido.

Mais até a minha janela, foi retirada de mim.

Meu pai (um péssimo administrador, se assim o posso descrever) realizou uma série de maus investimentos e repentinamente, perdemos tudo.
Minha mãe na época, foi coagida por meu pai a abandonar o emprego para em último fôlego, utilizar do montante de sua rescisão em nossa empresa e novamente, péssimo movimento. - Dinheiro e emprego jogados fora em meio às dívidas, empréstimos e apólices vencidas.

Minha janela, fora retirada de mim.
Estávamos na rua. Literalmente.

Nesta parte, minha memória trabalha como fragmentos de um vidro despedaçado. Mesmo hoje me esforçando, o máximo que consigo coletar são sons, flashes, imagens e vozes.
Em uma passagem, lembro-me que desamparados, e com medo da rua - pedimos abrigo em uma escola pública. Dormíamos de favor em uma sala de aula em colchões improvisados com tatames de educação física e acordávamos a 5 da manhã, para limpar e dar vez aos alunos que logo chegariam.
Em outro momento, lembro-me de minha mãe se embrenhando em uma feira atrás de restos que se acumulavam nas calhas e latrinas. O podre que era jogado fora pelos vendedores, virava a ceia salvadora de cada dia.

E retiraram também, a luz de mim.
Não me lembro de efetivamente aonde e o que fazia durante o dia. Vivia em um ciclo de histórias e ilusões e fechava os olhos para o resto do mundo. E por 02 anos, fui o autor, escritor e roteirista de tudo o que se pode resumir hoje como: Ausência.

E acordei do meu transe no litoral paulista. O ego familiar havia sido vencido e enfim, pedimos ajuda.
Havíamos nos mudado para a rua do meu avô. Solícito, ele havia cedido sua casa e após algum tempo, começávamos a nos reerguer.

Nesse meio tempo, e dentre entrevistas e discussões - voltei ao foco.
Eu precisava de tratamento. E meu pai aqui, foi um exemplo.
Carregava-me nos ombros de cidade em cidade em busca de ajuda médica afim de uma operação. Mas esta não é a Odisseia de Ulisses e aqui, não houve fruto de uma vitória. Por conta da inexistência "gratuita" de um serviço deste cunho em nosso país tupiniquim, meu tratamento foi engavetado junto mais uma vez e sem data para retorno.

Anos depois, a escola.
O recinto do falso moralismo midiático, tudo - impregnado em roupas de marcas e batons vermelhos de despedida. Sua estada aqui é meramente visual, ganharão aqui somente os mais destacados e nada é reservado aos perdedores. Nem mesmo a integridade de suas lancheiras.

E sozinho foi, o meu primeiro dia.
Meu rosto era uma barreira de "integralização" e ausente, acompanhei outros alunos rumo à sala de aula, de mãos dadas com seus pais.
Sapatos brilhando, cabelos tratados, roupas passadas.
E como as pessoas se enganam! Acreditam de forma plena que em nestes rostos angelicais reside à compaixão e a amizade. Pfff... Balela.
- Não há nada mais cruel do que a separação e a indiferença causadas por um grupo de crianças. Gordinhos, Magrelos e Nerds fariam certamente parte do meu comitê de boas vindas. Mas nem entre eles, eu era bem vindo.

Piadas e chacotas doíam mais do que as cicatrizes que eu possuía. Era o "remendo humano dos dentes tortos", ambulante e peregrino em uma sociedade mirim preconceituosa. E por anos, vivi como uma sombra.

Mas nem tudo, é lamento.
"Banido" da vida social, me entreguei aos livros. Grandes companheiros, eles nas mais cinzas das horas. Li compulsivamente tudo o que consegui botar as mãos e aos 15 anos, recebi minha bonificação: Com material necessário e diversas teses sobre o meu problema, resolvi procurar o melhor entre os melhores cirurgiões e enfim, conquistei a oportunidade de expor o meu caso e trabalho a uma clínica.

De mãos dadas com a força e o apoio dos meus pais, chegamos ao consultório - presente até os dias de hoje em uma zona renomada do Rio de Janeiro.
Fui ouvido, fui analisado e fui taxado - em preços mais caros do que uma simples família classe média pode suportar ou até mesmo, sonhar ter.
Lembro-me deste momento, ele foi o marcante em minha trajetória e o culpado por me fazer proclamar hoje que: Tudo na vida, tem uma razão.
Neste dia exato, na hora exata e só por conta do silêncio causado pelo nosso "baque" ao saber o preço da cirurgia, um senhor que caminhava pelo extenso corredor conseguiu me ouvir:
- "Doutor, eu não estou pedindo para sair daqui sendo uma celebridade. Estou pedindo para apenas, ser um cara normal."

O senhor em questão, era o Dr. Ivo Pitanguy.
O grande mestre abriu a porta, me encarou e pediu para eu repetir a frase. E eu assim, o fiz.
Ele, que não mais operava abriu um sorriso e uma exceção. Resolveu cuidar de mim. Resolveu me operar. Cobrou apenas o essencial para o procedimento e deu vez a um ser que a muito buscava a felicidade.

E foi de fato, um renascimento.
O acúmulo de drogas utilizadas ao longo dos anos em minha corrente sanguínea (motivada pelas inúmeras interversões cirúrgicas que sofri ao longo dos anos) reagiu com esta nova sedação e por tal, infelizmente fui vítima de uma parada cardíaca e por alguns minutos, morri na mesa de cirurgia.
E ressussitado fui, minuto após.

E mais um outono se passou, fechei minhas feridas e me recuperei.
O resultado? - Melhor do que o esperado. Era finalmente um cara normal. Paralelamente, prossegui com um tratamento dentário e alguns anos após (já também na academia), finalizei por completo o meu projeto de vida.

Neste meio tempo, meu conhecimento havia rendido um cargo legal em uma multinacional no setor de tecnologia de informação.
E eu nunca parei de estudar. Nunca parei de aprender.
Foi o livro, um culpado.
A força de vontade, meu salvador.

Nunca desista.
Seja você gordo, magro, esquisito ou sem dentes.
Foda-se a opinião pública. Foda-se se não és atraente. Fodam-se aquele que não acreditam em seus sonhos.
Nunca desistam amigos.
Saibam absorver o que há de bom nesta concha de inércia em que vivemos.

E este é o meu conselho à todos os guerreiros da real.
Nunca parem de se aperfeiçoar.
Pois o maior inimigo do homem, é o seu pessimismo.

Seja um vencedor em sua vida. Conquiste grandes vales, desbrave o mundo.
Não há montanha que seja intransponível.

E em uma geração de molengas, vivendo em nossa república coitadista, precisamos de bons exemplos para os próximos.

Vá, veja e VENÇA.

Sempre.
Sucesso amigo! Li todo o relato, isso aí, sem vitimismo, metendo a cara a tapa.

Não sei porquê, mas o nome Ivo Pitanguy é familiar..

Sartana

Muito bom relato.
E parabens,vc realmente é um bom exemplo para a real.
Movido para "Relatos". Depois eu leio que agora eu tô bêbado.
(28-02-2013, 09:05 PM)Commoder Escreveu: [ -> ]Sucesso amigo! Li todo o relato, isso aí, sem vitimismo, metendo a cara a tapa.

Não sei porquê, mas o nome Ivo Pitanguy é familiar..
Ivo Pitanguy é um dos maiores, se não o maior cirurgião plástico do país!
E quanto ao relato, Mr. T. vc é guerreiro cara!!
Que relato realmente tocante, me fazendo emocionar!!
E vc é mais um exemplo que só os livros salvam!!!
Você é um exemplo, para esses jovens que se fazem de vítimas, de deixar de correr atrás dos seus sonhos, daquilo que acreditam!

Tudo na vida, tem uma razão!!
Parabéns Mr. T! São as grandes dificuldades que se vencidas transformam homens normais em grandes homens. E você é um um belo exemplo disso, afinal o que não mata fortalece.
É uma honra ler relatos como esse.
Estou sem muitas palavras agora, mas, de toda forma, seu relato me foi muito inspirador.

Eu que sempre fui um bocado pessimista, desde que conheci a Real estive sentindo esse sentimento desaparecer de mim, pois agora sei um pouco melhor como as coisas funcionam e não preciso mais ficar me culpando. Tenho que focar única e exclusivamente na minha melhoria. Com esse seu relato agora eu realmente vejo que existem exemplos de superação e que realmente a força interior que move o sujeito à frente é que é o grande direcionador e acionador de quaisquer coisas no mundo.

Ficar reclamando de tudo e choramingando pelos cantos, depressivo, nunca resolveu nada nesse mundo. A pessoa primeiro precisa reconhecer qual problema tem, depois avaliar um jeito de resolvê-lo, pois sempre há um jeito (que muitas vezes a pessoa já sabe qual é, mas não quer enxergar ou coloca defeitos demais - como se sua situação não fosse muito pior que tais "defeitos" que inventa). Já sabe o problema e o que fazer? Hora da luta!

Depois é necessário batalhar, batalhar e batalhar! Aqui é onde se faz a honra do homem, que batalha, se realiza e se sente merecedor das recompensas de forma diretamente proporcional ao esforço empregado. Custando o que custar, para alcançar tal objetivo, onde aos poucos as dúvidas, o pessimismo prejudicial (nem todo o é), e tudo quanto é ruim vai ficando para trás...

Por isso que a persistência, liderança e auto-confiança são essenciais para a auto-estima e o desenvolvimento dos homens. As pessoas são criadas e condicionadas para se tornarem umas inúteis depressivas, mas ninguém é obrigado a se submeter à isso. Podemos lutar contra todas as "Matrixes" que tentam nos empurrar todo tempo. Nós podemos arrebentar essas cordas fininhas, pois agora somos búfalos de verdade. Vocês não sabem o tamanho da força que tem, colegas!

Muito obrigado pelo relato, Mr.T, que ele sirva de lição para todos que virão. Forte abraço.

Destro

Eu não tinha lido este relato parabéns Mister T sua vida de superação é um exemplo !
Um brinde ao Dr. Ivo Pitanguy.

E respeito ao Mr. T.
Que relato ! Sem mais.
Que relato cara. Parabéns por sua vitória Mr. T. Tenho orgulho de pertencer a essa comunidade.
Que relato sinistro. E a sua frase deve ter tocado o Dr. Ivo Pitanguy em algum ponto dele.
Parabéns cara, pode ter certeza que 90% das pessoas que estivessem na sua situação não teria dado a volta por cima, pois o vitimismo é o caminho mais fácil, a pessoa não precisa fazer nada a não ser reclamar da vida, mas você não, vc lutou e se aperfeiçoou, e é aí que se separa o joio do trigo, vc é diferenciado dos outros, vc foi guerreiro, e agora é um guerreiro a Real, tenho muito orgulho de ler seu relato, Abraço!

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Caraca!!! fodástico!!! Eu conhecia um cara que tinha lábios leporinos, o apelido do cara era "boquinha". Ele não eve a mesma sorte que você, acabou caindo na vida.

Parabéns a você, mas também, e se não mais até, a seus pais, que estiveram ao seu lado. E pelo que posso perceber nunca foram egoístas. Histórias de sucesso, são geralmente assim como a sua, cheia da palavra "nós", "família", e sempre no plural.
Faço minhas palavras as do Jack Taller

Um brinde ao Dr. Ivo Pitanguy.

E respeito ao Mr. T.²

Um relato realmente de superação, direto, guerreiro, focado e com muito esforço realizado.

Uma inspiração Mr. T

Abraços
Confrades,

Obrigado pelas respostas. Valeuw pela força.
Meu intuito aqui, - em meu relato(e desde que iniciei minhas postagens neste fórum) - sempre foi(e será) o mesmo: Aprendizado e Honra. E espero(mesmo que em pequena estância) ter motivado alguém.
Se consegui tal feito, já dou-me por satisfeito.

E tudo, é possível. Basta dar a cara à tapa na vida e sair da concha do comodismo.

E mais uma vez, parafraseando ROCKY,:
"Nada vai bater em você mais forte do que a vida.
E não importa -o quanto você aguenta apanhar mas sim, como você vai bater".
Pow, cara... Parabéns!
Sem mais... por ter vencido na vida no modo hard: Sem uma boa aparencia, pobre, e ainda sim honrado, sem fazer do jeito mais fácil.
Pq roubar é fácil, trabalhar e se realizar é que pega...

Conheço bem o seu drama. Por coincidencia, o hospital em que trabalho é especializado em cirurgias de lábio e palato, então conheço vários casos semelhantes, e sei bem a crueldade que é viver com essa anomalia, antes da cirurgia.
PÔ Mr. T, que relato foda hein cara! Cheguei nas últimas linhas com os olhos marejados, PQP, cara quanta dificuldade na sua família nos anos 80, do céu ao inferno. Vc tinha tudo pra ser mais um vitimista, mas fortacelceu se eu interior como uma rocha e venceu. PARABÉNS PRA TI E PRA SUA FAMÍLIA CARA!
Parabéns Mr.T relato de um guerreiro da Real, com superações, fé, coragem.
Uma inspiração sem duvida.
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